segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Resumo: critico e analítico Nome da obra: A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Autor: Rubem Alves Ano: 2003 Editora: Papirus – 5º Edição Local: Campinas, São Paulo. Uma obra apaixonante, de autoria de Rubem Alves é um crítico do sistema de ensino brasileiro. Um renome nacional, escritor, poeta, um pensador da educação contemporânea. Para o educador e professor emérito da Unicamp, o problema da escola é que ela não leva em consideração o desejo de aprender das crianças e está respondendo às perguntas que somente os adultos acham importantes. Breviário da vida de Rubem Alves nasceu no dia 15 de setembro de 1933, em Boa Esperança, sul de Minas Gerais, naquele tempo chamada de Dores da Boa Esperança. No período de 1953 a 1957 estudou Teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas (SP), tendo se transferido para Lavras (MG), em 1958, onde exerceu as funções de pastor, até 1963. Casou-se em 1959e teve três filhos. Em 1963 foi estudar em Nova York, retornando ao Brasil no mês de maio de 1964 com o título de Mestre em Teologia pelo Union Theological Seminary. Denunciado pelas autoridades da Igreja Presbiteriana como subversivo, em 1968, foi perseguido pelo regime militar. Na Universidade Estadual de Campinas foi eleito representante dos professores titulares junto ao Conselho Universitário, no período de 1980 a 1985, Diretor da Assessoria de Relações Internacionais de 1985 a 1988 e Diretor da Assessoria Especial para Assuntos de Ensino de 1983 a 1985. No início da década de 80 torna-se psicanalista pela Sociedade Paulista de Psicanálise. Em 1988, foi professor-visitante na Universidade de Birmingham, Inglaterra. Na literatura e a poesia encontrou a alegria que o manteve vivo nas horas más por que passou. Admirador de Adélia Prado, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Octávio Paz, Saramago, Nietzsche, T. S. Eliot, Camus, Santo Agostinho, Borges e Fernando Pessoa, entre outros, tornou-se autor de inúmeros livros, é colaborador em diversos jornais e revistas com crônicas de grande sucesso. Semanalmente, publica suas crônicas no jornal Correio Popular e eventualmente escreve para a Folha de São Paulo. Escreveu vários livros, dentre os quais: A alegria de ensinar; O amor que acende a lua; Aprendiz de mim: Um bairro que virou escola; Cenas da Vida; concerto para corpo e alma; conversas com quem gosta de ensinar; Por uma educação romântica e muitos outros. No livro em questão, “A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”, Rubem Alves tece uma analise sobre a “Escola da Ponte”, relata a experiência inovadora, desenvolvida em Portugal, o educador ao tomar contato com a escola da Ponte viu a materialização de todos os seus anseios educacionais na medida em que, a escola da Ponte apresenta uma prática focada no aluno. O livro é genuinamente uma obra de arte, um mosaico construído com pequenos pedacinhos, relatos, pensamentos, reflexão, bem esquematizado em forma de crômicas. Educar é um processo continuo muitas vezes nos questionamos por que a educação é uma instituição em fracasso, ou melhor, por que não se investe em uma educação com qualidade? Falando de educação publica e com qualidade. Na escola da ponte se acentuava os esforços na formação do aluno, com um sujeito liberto. Conforme Rubem Alves, a educação é um permanente movimento no sentido da decantação e da intersecção desses olhares. É nesse momento que se descobre que existe um vasto mundo para ser conquistado, como diz o autor “esse é o primeiro momento mágico da educação” (Rubem Alves, 2003, pg. 9). Conduzir o aprendiz a buscar suas próprias conquistas. Notando que existem dois mundos, o mundo interior e o exterior. É no mundo interior que se encontra a identidade. Delinear, quando traçamos objetivos claros ou que nos descobrimos começamos aperfeiçoar a nossa visão de mundo exterior. A experiência vivenciada pelo autor na escola da ponte, e traduz a educação em foque, é um caminho e um percurso. O caminho é olhar a educação de fora e o percurso é fazer a experiência. Notamos que o sistema educacional é pensado por aqueles que apenas contemplam o caminho e não por pessoas que fazem o percurso. Conseqüentemente podemos dizer que é um processo censurável. Portanto o século XX foi não o século do renascimento da educação, o “o século da criança”. Como se expressa o autor “o século da agonia da educação da sua canonização instrumental”, é relevante repensar o jeito de pensar educação. Todavia, a escola está a serviço de uma sociedade elitista e naturalmente classifica os alunos entre “bons” e “maus” porque este é o papel da escola na contemporaneidade, e inadmissível um sistema que exclui que classifica. Uma escola onde aprender é fazer; é viver pensar, criar, inovar, é dar valor àquilo que se aprende na convivência, expressando a própria vida. Onde aprender tem várias formas. Uma escola onde se aprende a “ser gente”. Uma escola que pensa, sonha, age e é a própria vida. O objetivo primordial da escola da ponte, “é ajudar as crianças a entenderem o mundo e a realizarem-se como pessoas, muito além do tempo de escolarização” (p.105). Desse modo, é necessário que a escola conduza o aluno para seu auto-conhecimento e se auto-descubra e como tal possa reconhecer as diferenças e aprenda a conviver com elas, objetivando a sua melhoria enquanto cidadão e membro de uma sociedade. Muito se fala sob educação democrática, a escola da Ponte o autor a define como uma escola democrática e auto regulando, “a ponte é, desde logo uma comunidade profundamente democrática e auto-regulada”. Democrática, no sentido de que todos os seus membros concorrem genuinamente para a formação de uma vontade e de um saber coletivos [...]. Auto-regulada, no sentido de que as normas e as regras que orientam as relações societárias não são injunções impostas ou importadas simplesmente do exterior [...]. Analisando as colocações do autor, e fazendo um paralelo com o sistema atual quais seriam os pontos comuns? Na realidade o nosso sistema educacional, somente desenvolve projetos elaborados e impostos por um sistema fraudulento e tradicional. Para que ocorra uma mudança no sistema educacional é relevante que o aconteça uma mudança de mentalidade, onde se possa ver a educação por outro ângulo. O ambiente educativo é um dos novos paradigmas, para transformar a educação em qualidade, na valorização da pessoa como um ser humano. 666 em pagos e não precisam pular de colégio em colégio para se poderem manter. Pois é a escola de uma sociedade em que educação não é privilégio, mas direito universal, e o acesso a ela, dever obrigatório. . Quero uma escola retrógrada... Aforismo que repito sempre: "Numa terra de fugitivos aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo." O poeta T. S. Eliot, que o escreveu, pôs o fugitivo no singular: um ser solitário. E era assim que eu sempre me sentia, andando sozinho na direção contrária. Mas, repentinamente, descobri um outro "fugitivo", um velho de longas barbas e que fumava um charuto fedorento. Não gosto de cheiro de charutos. Mas gosto de companhia. Aproximei-me dele e o reconheci. O nome dele era Karl Marx. Fiquei espantado porque sempre pensei que ele se encontrava no meio da multidão dos que andam para a frente, os modernos, economistas, cientistas - pois foi isso que sempre disseram dele os que se diziam seus intérpretes. De fato, as roupas que ele usava eram modernas, feitas de tecido fabricado naquelas tecelagens (que ele odiava) onde trabalhavam mulheres e crianças 16 horas por dia, para enriquecer os donos. Evidentemente faltava-lhe tempo e habilidade para fazer o que fazia aquele outro retrógrado chamado Gandhi, que tecia seus próprios tecidos num tear doméstico que ele afirmava ter poderes terapêuticos e sapienciais. Percebi que ele era moderno por fora mas o seu coração era retrógrado;; andava para trás. Como o meu. Psicanalista, presto atenção nos detalhes, os lapsus, e foi assim que descobri esse segredo que ninguém mais sabia: um pequeno texto...Ele dizia nesse texto que o operário, ao ver o objeto que produzira, tinha de ver o seu próprio rosto refletido nele. Cada objeto tem de ser um espelho, tem de ter a cara daquele que o produziu. Quando o operário vê seu rosto refletido no objeto que ele produziu ele sorri feliz. O trabalho, com todo o seu sofrimento, valeu a pena: foi dor de parto. Agora, meu leitor, lhe peço: ande por sua casa e examine os objetos modernos que há por lá: liquidificadores, torradeiras, fogões, computadores. Olhando para eles, cara de quem você vê? Se, ao invés de estar comprando um desses objetos numa dessas lojas que vendem tudo para fazer sua mãe feliz - eles, os vendedores, acham que sua mãe é muito curta de inteligência e de sentimentos - você estiver numa exposição de arte - esculturas do Santos Lopes, esse extraordinário artista português, por exemplo - e você se apaixonar por uma delas - você poderá procurar um lugar, na escultura, onde ele colocou a sua assinatura. Você compra a escultura, leva-a para sua casa, põe na sala, e se eu for visitá-lo, ao ver a escultura, direi imediatamente, antes de examiná-la: " Ah! Você tem uma Santos Lopes!" Todas as esculturas do Santos Lopes têm a cara dele ( mesmo que ele não as assine;; são inconfundíveis!). Mas o nome de que artesão irei dizer ao ver seu liquidificador, sua torradeira, seu computador, sua esferográfica? Esses objetos foram feitos por pessoas sem nome. Foram produzidos em linhas de montagem. São todos iguais. Quando ficam velhos são jogados fora e outros, novos, também produzidos em linhas de montagem, são comprados. Operários que trabalham em linhas de montagem não assinam as suas obras - porque não são deles - e nem vêem o seu rosto refletido nelas. Foi isso que me fez concluir, a partir da pequena afirmação de Marx, que ele destruiria as linhas de montagem, se pudesse, voltando então a um tempo passado onde cada obra era espelho como assinatura. Acontece que objetos com o rosto do artesão e assinatura não chegam para alimentar a economia capitalista, que tem uma fome insaciável. Marx sonhava com uma situação que já não mais existia, o atelier do artesão medieval, cada artista, cada aprendiz, fazendo uma coisa única, que nunca mais se repetiria: em cada objeto o rosto do que o produzira, cada objeto uma experiência de felicidade narcísica. É isso que combina conosco, seres humanos, únicos, que nunca se repetem. Como são produzidos liquidificadores, máquinas de lavar roupa, computadores, automóveis? São produzidos numa "linha de montagem". De maneira simplificada: uma esteira que se movimenta. Ao lado dela estão operários. Cada operário tem uma função específica. O processo se inicia com uma "peça original" à qual, à medida que esteira corre, os operários vão acrescentando as partes que irão compor o objeto final. Nenhum operário faz o objeto, individualmente. Cada operário faz uma única operação: juntar, soldar, aparafusar, cortar, testar. O resultado da linha de montagem é a produção rápida e controlada de objetos iguais. A igualdade dos objetos finais é a prova da qualidade do processo. O que não for igual, isso é, que apresentar alguma peculiaridade que o distinga do objeto ideal, é eliminado. A função da "peça original", como se vê, é a de ser simples suporte para as outras peças que lhe vão sendo acrescentadas. Ao final do processo a "peça original" praticamente desapareceu. No seu lugar está o objeto que vale pela sua função dentro do processo econômico. Nossas escolas são construídas segundo o modelo das linhas de montagem. Escolas são fábricas organizadas para a produção de unidades bio-psicológicas móveis portadoras de conhecimentos e habilidades. Esses conhecimentos e habilidades são definidos exteriormente por agências governamentais a que se conferiu autoridade para isso. Os modelos estabelecidos por tais agências são obrigatórios, e têm a força de leis. Unidades bio-psicológicas móveis que, ao final do processo, não estejam de acordo com tais modelos são descartadas. É a sua igualdade que atesta a qualidade do processo. Não havendo passado o teste de qualidade-igualdade, elas não recebem os certificados de excelência ISO-12.000, vulgarmente denominados diplomas. As unidades bio-psicológicas móveis são aquilo que vulgarmente recebe o nome de "alunos". As linhas de montagem denominadas escolas se organizam segundo coordenadas espaciais e temporais. As coordenadas espaciais se denominam "salas de aula". As coordenadas temporais se denominam "anos" ou "séries". Dentro dessas unidades espaço-tempo os professores realizam o processo técnico-científico de acrescentar sobre os alunos os saberes-habilidades que, juntos, irão compor o objeto final. Depois de passar por esse processo de acréscimos sucessivos - à semelhança do que acontece com os "objetos originais" na linha de montagem da fábrica- o objeto original que entrou na linha de montagem chamada escola ( naquele momento ele chamava "criança") perdeu totalmente a visibilidade e se revela, então, como um simples suporte para os saberes-habilidades que a ele foram acrescentados durante o processo. A criança está, finalmente formada, isso é, transformada num produto igual a milhares de outros. ISO-12.000: está formada, isto é, de acordo com a forma. É mercadoria espiritual que pode entrar no mercado de trabalho. Aí o meu companheiro de direção contrária me perguntou se não seria possível mudar as coisas. Abandonar a linha de montagem de fábrica como modelo para a escola e, andando mais para trás, tomar o modelo medieval da oficina do artesão como modelo para a escola. O mestre-artesão não determinava como deveria ser o objeto a ser produzido pelo aprendiz. Os aprendizes, todos juntos, iam fazendo cada um a sua coisa. Eles não tinham de reproduzir um objeto ideal escolhido pelo mestre. O mestre estava a serviço dos aprendizes e não os aprendizes a serviço dos mestres. O mestre ficava andando pela oficina, dando uma sugestão aqui, outra ali, mostrando o que não ficara bem, mostrando o que fazer para ficar melhor ( modelo maravilhoso de "avaliação"). Trabalho duro, fazer e refazer. Mas os aprendizes trabalham sem que seja preciso que alguém lhes diga que devem trabalhar. Trabalham com concentração e alegria, inteligência e emoção de mãos dadas. Isso sempre acontece quando se está tentando produzir o próprio rosto ( e não o rosto de um outro). Ao final, terminado o trabalho, o aprendiz sorri feliz, admirando o objeto produzido. São extraordinários os esforços que estão sendo feitos para fazer com que nossas linhas de montagem chamadas escolas tão boas quanto as japonesas. Mas o que eu gostaria mesmo é de acabar com elas. Sonho com uma escola retrógrada, artesanal... Impossível? Eu também pensava. Mas fui a Portugal e lá encontrei a escola com que sempre sonhara: a "Escola da Ponte". Me encantei vendo o rosto e o trabalho dos alunos: havia disciplina, concentração, alegria e eficiência.

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